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A terceira margem do rio – Guimarães Rosa

maio 27, 2012

“A terceira margem do rio” é tido como o mais famoso conto de Guimarães Rosa, provocando as mais diversas interpretações, devido a seu teor enigmático presente na história de um homem que se afasta do convívio familiar e a da sociedade, preferindo a solitude do rio, no qual navega em uma canoa construída com um propósito: servir de veículo na busca de respostas ou da resposta para os questionamentos existenciais. 

O narrador, também envolvido na história, é o filho, responsável em relatar o empreendimento do pai e as diversas tentativas dos familiares e amigos em reconduzir o aventureiro navegador ao curso natural da vida. Todas as tentativas são frustradas. A aventura continua, levando a família a tomar decisões radicais: a irmã, após o casamento, muda-se da fazenda levando consigo a mãe; e o irmão toma a mesma decisão. O único a continuar é o narrador, na esperança de convencer o pai a rever sua decisão. 
O filho, ao permanecer na fazenda, próximo ao rio, procura constantemente entender o porquê do afastamento do pai. Essa ausência provocada de forma abrupta e inexplicável, fugindo completamente daquilo que entende como normal na vida humana. Quais os verdadeiros motivos que levaram o seu pai a decidir-se pela solidão ao convívio familiar? O que seu pai estava procurando? A procura do pai seria a procura de todo ser humano? Seria essa a decisão última a ser tomada na busca do conhecimento existencial? Para uma verdadeira compreensão é necessário assumir o lugar do pai na canoa. No entanto, quando seu desejo parece possível de realizar-se, foge com medo, desistindo da idéia. De qualquer forma, a insistência do filho em continuar nas proximidades do rio, demonstra o seu desejo de compreender as razões da existência humana. 

A partir da visão que o filho-narrador tem da aventura do pai, é possível fazer-se uma análise teológica dessa experiência. Alguns detalhes chamam a atenção do leitor, levando a uma apreciação daquilo que apontaria para a presença de elementos metafísicos ou religiosos presentes no texto. O primeiro fator que impressiona aparece logo no título do conto: “A terceira margem do rio”. Uma viagem em direção à terceira margem do rio é algo insólito, anormal. O título é provocativo e misterioso. É preciso um “mergulho” cuidadoso no texto para perceber a verdadeira intenção do autor. 

Já que um rio só tem duas margens, uma viagem a uma terceira margem parece apontar para algo metafísico. A viagem pelo rio tem um propósito que transcende um mero passeio ou divertimento. Há uma busca metafísica e existencial. Há uma busca por respostas, que não podem ser encontradas no curso natural da história. É preciso uma viagem que extrapole a superficialidade da visão. O rio só tem realmente duas margens? Não existe nada além do ordinário? A busca de uma terceira margem pode ser a explicação para a existência das duas margens, as quais ganharão sentidos, trazendo sentido para o navegador. 

É possível decifrar algum simbolismo em relação à água. No que se refere à religião, a água está relacionada ao batismo, experiência de morte para um estilo de vida primitivo e insignificante e nascimento para uma outra vida: vida superior qualitativamente, caracterizada pela excelência e pelo significado existencial. 
A busca do pai (navegador) pode estar num mergulho em si mesmo. Isso explicaria a busca pela solidão. É na solitude, tendo o rio como espelho, que seria possível um encontro consigo mesmo, encarando sua verdadeira natureza, encontrando sentido para a vida e para a sua vida. 

Talvez a busca esteja em torno de uma verdade religiosa, que explique os conflitos e questionamentos no íntimo do seu ser. A existência de um Deus (ou de Deus) parece exigir uma busca transcendental. É preciso ultrapassar as duas margens naturais para alcançar uma margem sobrenatural: a terceira margem. 

Uma outra possibilidade estaria em buscar ou encontrar sentido por meio da própria morte. A decisão radical pelo afastamento, pela solidão, pelo abandono, parece uma decisão pelo perecimento. A vida perde o sentido. A história não tem significado. Se há alguma razão para a existência, ela pode estar do outro lado, na terceira margem. É preciso enfrentar a transição que todos temem, para encontrar numa nova forma existencial o sentido não encontrado entre as duas margens. 

Nem todos estão conscientes da necessidade de um conhecimento da realidade, como também não estão prontos para enfrentar a realidade. Parece ser esta a condição do filho. Ao permanecer à margem do rio, anseia pelo significado da vida. Pede para ocupar o lugar do pai, mas ao contemplá-lo, foge, muito provavelmente, da realidade. Ele não foi capaz de dar o passo necessário para a experiência concretizadora do conhecimento da realidade. A verdade assusta. Ele preferiu continuar entre as duas margens, a enfrentar aquilo que é real quanto a existência humana. 

Procurar a terceira margem parece ser a busca de todo ser humano. A teologia aponta para uma direção que entende como verdadeira e única: conhecer a Deus por meio de Jesus Cristo para poder se conhecer. Por meio da revelação proposicional, encontrada nas Escrituras, é possível navegar com segurança ao encontro da verdade. Se há uma terceira margem, se há uma verdade, se há sentido para a existência humana, em Cristo tudo é solucionado. Nele, toda a aventura se encerra. 

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